Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Rapariga na Aldeia

Blog pessoal de uma rapariga que vive na aldeia e às vezes vai à cidade.

A Rapariga na Aldeia

Blog pessoal de uma rapariga que vive na aldeia e às vezes vai à cidade.

Uma Macaca na Cidade (36)

CADAVRE EXQUIS – O RESULTADO

 

Acho que não poderia ter sido mais apropriado. Eu avisei: poucas, mas boas! Um patchwork totalmente em sintonia e a propósito da dicotomia aldeia/cidade ahahahahahahahah!

 

Muito obrigada a todas pela vossa participação. Não há prémios, mas há um texto bonito e bem escrito para ler e que fica para a posteridade.

 

 

 

Definitivamente, ela não era uma criança como as outras… Ao invés de usar o coração do lado esquerdo do peito, enjaulado entre a grelha costal, trazia-o nas mãos, no olhar e, amiúde, no sorriso. Era um coração enorme, dizia-se. E bonito como poucos. Como haveria ela de encaixá-lo no sítio dele, se este parecia desenhar-se, como por magia e na perfeição, no contorno dos lábios quando sorria? Poucos eram os que ficavam indiferentes à menina que sorria com o coração.

 

De sorriso contagiante, baixa, mas não em ações, bem-apessoada e generosa, a menina encantava o seu mundo e essencialmente o dos outros. Tornava os casos bicudos em lindas paisagens coloridas, os pesadelos em sonhos e, essencialmente, a solidão dos mais velhos em companhia. Conseguia a enorme proeza de arrancar sorrisos sinceros à viúva macambúzia que vivia no ermo da aldeia. Os seus pais, orgulhosos da sua afável cria, todos os esforços faziam para que seguisse os estudos num sítio mais desenvolvido do que aquele em que viviam. A ideia agradava à menina. Significava crescimento, novos conhecimentos e estudo, muito estudo. Porém, estudar fora da aldeia representava também afastar-se de todos os seus colegas de infância, sobretudo de António, com quem mantinha uma amizade muito especial e verdadeira…

 

Era uma aventura, uma verdadeira aventura ir para a cidade grande onde não conhecia ninguém. Sentia-se dividida entre a sensação de trair os amigos de sempre e a expectativa da universidade, das noitadas a estudar, dos novos amigos, de descobrir os cantos de uma cidade nova. Ela, que nunca tinha saído da sua terra…falso, fora uma vez com os pais visitar uns amigos misteriosos que soubera fazerem parte dos seus tempos de estudantes. E lembra-se da sensação de desconforto que tinha pressentido, quando chegaram à conclusão que as suas vidas tinham divergido tanto, que já pouco – nada, tinham em comum. Pensou na altura que de forma alguma deixaria isso acontecer consigo e com os seus amigos. Os seus amigos seriam para sempre.

Mas hoje, com a distância física e agora também emocional, já não sabia bem como se sentia. As novas amizades, as novas vivências e experiências tinham-na afastado da vida da aldeia. E a única proximidade que sentia ainda era com o António, pois telefonavam-se frequentemente. Até dos seus pais, acreditava ter sido cavado um fosso em que a comunicação agora se tornava cada vez mais difícil. Não aprovavam as roupas, nem as companhias, nem a vida que adotara na cidade.

 

Contudo, a menina não desistia, a menina queria seguir o seu sonho! Ao deixar a aldeia, deixara António, o seu grande amor da infância, mas este deixar implicou uma alteração drástica na sua vida. Começou a cair aos poucos nos amores fugazes, afinal tudo era brilho, tudo era mágico nesta nova realidade. Sempre acreditou que todas as pessoas tinham um pensamento puro e que fariam o melhor pela sua adaptação, pelo seu percurso. Não poderia estar mais enganada. Rompeu as suas ligações à aldeia, pois ninguém queria dizer que a conhecia, e, na cidade, começou a ser olhada de lado por todas as raparigas e a ser um alvo fácil dos rapazes! Viu-se assim sem amigos, rodeada de pessoas que apenas queriam aproveitar-se das suas fragilidades. “Chega!” – disse um dia – “Tenho de mudar o rumo dos acontecimentos, e essa mudança será imediata! Não poderei ser mais a menina que sorri com o coração, porque essa menina não existe mais dentro de mim!” E assim foi, começou a ignorar todas as investidas, focou-se na sua formação, na conclusão dos estudos que há tanto ambicionava. Conseguiu recuperar as notas e tornar-se uma aluna de excelência. O que antes era visto com facilitismo, começou a ser visto como um marcar de posição e uma fonte de inveja por tão bons resultados. Continuava sem amigos, mas agora no rumo certo. Antes mesmo de terminar o curso foi contactada por várias empresas, todos queriam ter a menina “implacável”, a menina que para tudo tinha uma solução. Era vista como um trunfo, num mercado em ascensão. Finalmente estava a conseguir cumprir o seu sonho, mas faltava-lhe algo, faltava-lhe o calor humano que tinha conhecido outrora. O que fazer?! Qual a solução para a felicidade?

 

Voltar para a aldeia ou ficar na cidade? Ela sentia-se deslocada quer num sítio quer no outro. Parecia que não pertencia a nenhum daqueles lugares. Já não era a mesma menina sorridente que saíra da aldeia, mas também não se sentia parte integrante da cidade onde se fizera mulher. Recordou tudo o que vivera desde que saíra da aldeia.

Olhou para o abismo que separava a mulher que era hoje da menina que fora. Tudo o que sempre quis foi ser feliz. Pouco lhe interessava sucesso, dinheiro ou seguir a última tendência. Nada disso tinha qualquer importância. Infelizmente, por mais que a perseguisse, a felicidade parecia sempre fugir-lhe no último momento. Agora estava ali, de olhos postos no rio mas também de olhos postos no futuro. Desta vez ia deixar de procurar a felicidade nos outros e olhar para dentro de si. Ela levantou- se decidida. Iria à procura de si própria. E o lugar para se encontrar só podia ser um, a sua aldeia.

 

 

Assinado (pela ordem que se segue):

 

Macaca grava-por-cima

 

A Rapariga na Aldeia

 

Happy

 

Chic’Ana

 

Charneca em flor

 

 

roupa-para-bebs-na-fantasia-de-macaco-g-18919-MLB2

 

 

 

A Blogger

Sigam a Rapariga

Follow my blog with Bloglovin Follow

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D