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A Rapariga na Aldeia

Blog pessoal de uma rapariga que vive na aldeia e às vezes vai à cidade.

A Rapariga na Aldeia

Blog pessoal de uma rapariga que vive na aldeia e às vezes vai à cidade.

CompletaMENTE (3)

A Escola e o AMR

 

Na maior parte das profissões, ser um bom trabalhador implica ser um pouco frio, separar bem as águas, colocar ganhos acima de pessoas. Não na minha. Há pouco, em conversa com a professora do meu filho, esta acabou por me confessar que por mais que tente, se envolve sempre e que isso é mau. Que a faz sofrer.

 

Discordo absolutamente. CompletaMENTE! Envolvermo-nos com os nossos alunos não significa levarmos os seus problemas, famílias e questões para casa (aí já temos as nossas). Não. Para mim, esse envolvimento acontece na escola, tornando-a num espaço onde o aluno quer estar, aprender e partilhar – e quem sabe, muitas vezes esquecer as preocupações e demais bagagem emocional que traz do lar.

 

Aliás, isso acontece inúmeras vezes comigo. Chego à escola aborrecida com qualquer coisa e no momento em que entro na sala de aula e visto a minha roupagem de professora, os problemas pessoais e essa outra criatura, que também sou eu, desaparecem.

 

Nessa altura, acontece magia e bem-estar. Porque adoro a minha profissão e os meus alunos, claro. Mas também porque no meio disto tudo existe AMOR. Um amor desinteressado de bens materiais e centrado apenas no saber e nas pessoas. Um amor que envolve – sim, para ensinar e aprender todos temos de estar envolvidos – um amor que não evita, pelo contrário, confronta, suporta e faz crescer.

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Acredito que sem este amor, os alunos nunca sentirão respeito pelo seu professor e surgirão graves problemas de comportamento. Sem este amor, não há motivação para aprender e surgem as reprovações, frustrações, insucesso, resistência ao estudo. Sem este amor, a escola não é uma escola, mas só e apenas uma fábrica de matéria depositada em fichas e resumida num número (ou letra) ao final do período.

 

A escola é feita de pessoas e entre pessoas estabelecem-se relações. Se isso nos faz sofrer? Claro que sim, muitas vezes. Mas também nos faz acreditar e sentir vivos. A escola não é o romance entre Ricardo Reis e Lídia, onde apenas se fica a ver o rio a passar – sempre sem sentir. A escola é o rio e estamos todos continuamente a ser levados pela sua corrente cheia de vida. Todos os dias. Todos os dias a correr para onde ele nos levar e todos os dias a aceitar. Com amor. Com um imenso AMOR. Que o resto, o resto depois vem, certamente.

 

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Sónia Vaz

 

CompletaMENTE (2)

Todos Diferentes, Todos Diferenciados

 

Conversa de mães enquanto esperam os filhos durante um jogo de futebol: filhos, escola, filhos, escola. Invariavelmente, filhos e escola. Temas transversais, comuns a todos e supostamente ligeiros, não sendo, no entanto, ligeiros ‘at all’. Uma das mães de um amigo do meu mais velho dizia num desses encontros, que uma das professoras da escola do seu era menos popular entre os pais por trabalhar com os seus alunos em grupos, de acordo com o seu aproveitamento. Que os pais sentiam que a professora exclui e rotula.

 

Primeiro pais, antes de serem vocês a rotular a professora, por favor, conversem com ela acerca das vossas preocupações. Depois, muito embora, não conheça de todo o trabalho da profissional em questão, arrisquei pensar (e bolas, pensei mais uma vez em voz alta) que se calhar a senhora crucificada seria aquela, que muito provavelmente trabalha melhor. Espanto. Clarifiquei então, exatamente da forma que explico também o meu filho, quando este se queixa de ser tratado de forma ‘diferente’ (por mim, pela professora, pelas primas, por todos).

 

Não sei porque é que ser diferente, nunca significa ser melhor. É sempre mal interpretado, arredondado para baixo. Mas não na escola. Na escola todos são diferentes e todos gostamos disso. Incluímos, valorizamos, aprendemos com as singularidades de cada um. A bem dizer, uma escola inclusiva não colmata as diferenças, anulando a personalidade de cada um. Uma escola inclusiva diferencia para que todos os alunos, quaisquer que sejam os seus talentos ou dificuldades, se sintam integrados, motivados e capazes.

 

Isto é diferenciação pedagógica e está na lei (sim pais, é obrigatória!), mas qualquer professor competente dispensa a lei e a aplica diariamente para ajudar os alunos mais distraídos, para motivar os que terminam tudo em cinco minutos e depois só ficam a fazer disparates e para manter ocupados e interessados os alunos ditos ‘médios’. (Serão estes os grupos de que se falava? Certamente.)

 

Se todos somos diferentes, todos devemos ser diferenciados. A diferenciação pedagógica ajuda cada aluno a seguir o seu percurso de uma forma mais natural (holística, até), diminui o stress e atenua problemas de comportamento.

 

A diferenciação pedagógica não rotula, pelo contrário inclui e conclui que cada um tem o seu valor. Respeita, motiva e tem muitas formas, mas nenhuma se esconde sob o nome de discriminação.

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Vivamos então com alegria o facto de sermos todos diferentes e necessários por essa mesma diferença. Por nos completarmos.

 

Afinal, todos diferentes, todos diferenciados!

 

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Sónia Vaz

 

Quem é a Sónia e o que vem aqui fazer?

E perguntam vocês que ontem deram aqui um saltinho e leram ESTE TEXTO ... 

 

Quem é a Sónia Vaz e o que faz por cá?

 

Pois bem, tenho a dizer-vos que a Sónia foi-me apresentada há alguns anos como sendo amiga de uma amiga minha de infância. Portanto, esses amigos que temos em comum e os nossos filhos têm-nos juntado em diversas ocasiões/eventos e, digamos que gostamos de partilhar ideias sobre vários temas em geral e sobre o ensino em particular. Neste momento, sempre que nos encontramos habemus assunto. Podem imaginar duas raparigas cheias de assunto ... 🕰🕰🕰

 

Terminada a licenciatura em Geologia, a Sónia resolveu meter-se num avião rumo a Montana, nos Estados Unidos, para "escavar dinossauros" ... regressou anos mais tarde carregada de "bagagem", apaixonou-se, casou e hoje tem dois filhos, o Duarte de 8 anos e a Sofia de 4. É professora de inglês e tem uma vida dedicada ao ensino de crianças. Neste momento está em fase de conclusão do mestrado em ensino de inglês no primeiro ciclo. 

 

Irá partilhar mensalmente, através da rubrica CompletaMENTE, ideias e sugestões que surgem das conversas que ouve nas salas de professores e nas reuniões de pais (no papel de mãe.) Ela está ali no meio dos dois mundos! Ouve de um lado e do outro e claro, formula as suas próprias convicções e pressupostos sobre esta temática da educação. A Sónia irá escrever sobre aquilo em que verdadeiramente acredita no que respeita o ensino das crianças, o apoio da família, as relações casa-escola e as relações professor-aluno, só para citar alguns temas que irão ser abordados a partir de hoje. 

 

 

E porquê que a rubrica se chama CompletaMENTE?

Porque a Sónia está CompletaMENTE nisto da educação e do ensino desde que se lembra de ser gente. E também porque a querida sobrinha deu esta sugestão! 😀

 

Parece-me que vamos ter por aqui uma voz ativa sobre a educação e o sistema de ensino que vai certamente ajudar-nos a "completar a mente" num sentido muito positivo! 

 

Esperamos pelo próximo texto!

Bem-vinda Sónia 😀

 

 

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CompletaMENTE (1)

 O bullying na sua mais secreta e (talvez mais) poderosa forma

 

Estamos todos fartos de falar, de discutir bullying. Sim. Já todos opinamos, choramos e avisamos os nossos filhos e os nossos alunos acerca do bullying que acontece nos intervalos ou à saída da escola. Do bullying entre colegas. Mas existe nas escolas uma outra e velha forma de bullying. O praticado pelos professores sob a (in)discreta ditadura do sistema. Aquele que este justifica, e que os professores não contrariam. O bullying que cala as ideias, abafa a criatividade, instala a inércia, consome a motivação.

 

Este é o bullying que leva ao insucesso escolar, ao descrédito do ensino e do papel do professor, aos problemas de comportamento, à derradeira insatisfação. Causa stress, retenção e inúmeros, incontáveis problemas familiares.

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O sistema cala a voz dos alunos. Há imensa matéria que temos de dar para o teste e os miúdos querem é falar. Não temos tempo. Calem-se e façam a ficha. Têm de se preparar para o teste. De fazer oitenta exercícios e treinar mil vezes as palavras. Para depois, despejarem no teste e se esquecerem de tudo mal toque para o intervalo. E nós permitimos. Calamo-nos. E os miúdos também. Vamo-nos calando, acomodando todos. Fazendo fichas e fichas para cumprir o programa e para terminar o manual que os pais pagaram. Mas o que sobra disto? O que se aprende? O que levam os miúdos dos melhores anos das suas vidas? Do que se vão lembrar quando pensarem na escola? Das fichas? De empinar matéria para um teste?

 

Ninguém me consegue convencer disso. Temos o dever de fazer os nossos alunos e os nossos filhos falarem. De os ensinar a terem uma opinião e de não terem medo de serem julgados por ela. Aliás, devemos mostrar-lhes que isso é um prazer. Um dos maiores prazeres da vida: pensar e trocar ideias, conversar com os outros, criar.

 

Mas o sistema cala e os professores, stressados, apavorados, permitem-no. Estamos a criar robôs em série, crianças que ficam perdidas quando lhes dizemos que podem fazer qualquer coisa, que usem a sua imaginação. Mas o que é isso? Posso fazer o que eu quiser? Mas eu não sei o que quero. Tens de me dizer o que eu quero…

 

Não, meu amor. Não te vou dizer nada. Vou guiar-te até onde tu podes voar. Vou mostrar-te que consegues muito mais do que aquilo em que acreditas. Que te consegues superar e reinventar. Porque quero que amanhã, o meu mundo seja melhor e esse mundo depende de ti que hoje dependes de mim.

 

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Sónia Vaz

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