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A Rapariga na Aldeia

Blog pessoal de uma rapariga que vive na aldeia e às vezes vai à cidade.

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Entrevista a Márcia Galrão e Rita Tavares

Como Costa Montou a Geringonça em 54 Dias é o mais recente projeto das jornalistas Márcia Galrão e Rita Tavares. Um livro de política que descreve os bastidores do acordo histórico da esquerda (PS, PCP e BE). A Márcia é jornalista na revista Visão e a Rita no jornal Observador. Uniram-se e acederam, sem pestanejar, ao convite da editora para escreverem o primeiro relato histórico desta solução governativa totalmente inédita no nosso país. Nas páginas deste livro contam os dias intensos e agitados que se seguiram à noite das eleições legislativas de 4 outubro 2015. Percebi o prazer e o orgulho que hoje sentem por terem contribuído para esclarecer um pouco melhor as principais linhas deste acordo que a esquerda "desenhou".   

DSC05004.jpg Com a Rita e a Márcia. 

 

 

Depois do convite aceite, por onde começaram a investigação? Qual foi o vosso método de trabalho? 

Rita - Começámos por ir à Hemeroteca de Lisboa fazer um estudo e análise de toda a informação que saiu nos jornais a respeito do assunto que dominou aqueles dias, portanto focámo-nos em todas as informações públicas. A partir daí falámos com imensas pessoas, fizemos cerca de 50 entrevistas. Essencialmente foi um trabalho jornalístico em que confrontámos as diferentes versões dos factos com as várias fontes que conseguimos entrevistar. 

 

Como é que decidiram contar esta "história"?

Márcia - Como foram 54 dias muito intensos achámos mais interessante contar o que se passou dia a dia. E resultou muito bem. Portanto, este livro é uma espécie de diário. 

 

O livro foi escrito muito próximo dos acontecimentos que relata. O que significou de positivo e de negativo?

Márcia - O facto de ter sido escrito tão perto dos acontecimentos, significa que a memória das pessoas está muito mais fresca. Portanto este livro vive muito do que as pessoas nos contaram no imediato, da memória daqueles com quem falámos, daquilo que se lembravam no momento. Agora, também é verdade que daqui a uns tempos poderão lembrar-se de pormenores que no momento não nos transmitiram ... 

Rita - A desvantagem de ter sido escrito tão em cima dos acontecimentos, como isto ainda estava a dar os primeiros passos na altura em que começamos a escavar e a tentar perceber como é que tinha sido montada a geringonça, havia muita sensibilidade por parte dos partidos. Deparámo-nos com muitas reservas por parte de algumas pessoas com quem falámos. Percebemos que as pessoas não queriam contar alguns pormenores pois receavam que essa informação pudesse colocar em risco, de alguma forma, uma estrutura que ainda estava a dar os primeiros passos.  

 

Quais os principais obstáculos com que se depararam ao longo da investigação jornalística?

Márcia - A principal barreira foi, sem dúvida, o facto de algumas das pessoas que entrevistámos, não quererem avançar com determinadas informações que, talvez considerassem precipitado naquele momento. As primeiras entrevistas que fizémos foi em Janeiro e as últimas em Junho. A verdade é que se nota uma grande diferença no discurso das primeiras para as últimas entrevistas. Essencialmente, evidencia-se mais tranquilidade nas conversas em Junho. 

Rita - Encontrámos algumas pessoas que não se disponibilizaram para falar connosco. Muitas reservas ... Por exemplo, o PCP ao início acedeu somente a perguntas escritas e em Junho já foi possível entrevistar Domingos Abrantes, um histórico do partido, que falou em On

Márcia - Só mesmo para enquadrar, é importante referir que o PCP tem uma estrutura diferente dos outros partidos. São muito fechados. Tudo é concertado, não há fugas de informação, não há ninguém que fale em OFF. Como a Rita mencionou, Domingos Abrantes contou-nos muitos pormenores incluindo algum enquadramento histórico que serviu para percebermos porque é que o acordo foi possível neste momento, sendo que já tinha havido algumas tentativas de entendimento entre PS e PCP com António Costa a liderar negociações mas que nunca tinha sido possível chegar a um acordo, só agora! 

 

Apesar de estarem ligadas ao jornalismo político há vários anos, esta investigação permitiu-vos conhecer melhor os bastidores da política portuguesa? 

Rita - Sim, falar com as pessoas é sempre algo bastante enriquecedor. Ajuda sempre a compreender melhor os "porquês" de determinadas discussões. As pessoas falam da sua memória política, recuam no tempo e isso tem influência nos dias de hoje. Nós tentamos perceber os acontecimentos de um determinado dia à luz do que aconteceu no passado. Temos flashbacks desse género descritos neste livro. O objetivo era tentar perceber a dimensão histórica deste acordo, sabendo-se que o PS e o PCP eram inimigos há anos. Entender como é possível duas forças partidárias governarem um país, sendo que nunca se entenderam.  

DSC05003.jpg

No meio deste acordo, qual é o papel do Bloco de Esquerda?

Márcia - Convém frisar um pormenor. Este acordo da esquerda é do PS com o PCP e do PS com o Bloco de Esquerda. O PCP e o Bloco são duas forças que não conversam, não se sentam à mesma mesa e não estabelecem acordos. Portanto, aqui a chave do acordo é o Partido Comunista Português! 

 

Em algum momento, na noite eleitoral de 4 outubro 2015 (eleições legislativas), vocês pensaram que esta poderia vir a ser a solução governativa para o nosso país?

Rita - Quer dizer no dia 4 de outubro não! Sabemos que no dia 7 houve um encontro entre o PS e o PCP e, no fim desse encontro, toda a gente nas redações deve ter ficada agarrada à cadeira! 

Márcia - Nesse momento apercebemo-nos de declarações, por parte de António Costa e de Jerónimo de Sousa, mais próximas de um acordo. Nunca visto em democracia. Percebemos que tudo isto não foi desbloqueado três dias antes. Certamente que houve contatos exploratórios (entre PS, PCP e Bloco de Esquerda) com vista à formação de um governo de esquerda. Aliás, Domingos Abrantes disse-nos, e isso consta no nosso livro, que houve contatos no plano informal mas nunca se sentaram para conversar. 

  

O que é que ficou por contar? 

Rita - No livro descrevemos um encontro de António Costa com uma personalidade da direita. Ao que parece, um almoço que aconteceu entre as negociações deste acordo e, ao que sabemos, serviu para tranquilizar essa pessoa. Agora, não sabemos com que foi. Achamos que foi com uma pessoa relevante ... fica para os próximos capítulos...

Márcia - Outro pormenor que nos foi dado como relevante: Costa encontrou-se com alguém, antes das eleições, na casa da Ana Catarina Mendes e do Paulo Pedroso e parece que já falaram na hipótese desta solução governativa poder ser possível. Mas não sabemos com quem!

Collage_Fotor.jpgObrigada 😉

Têm noção da importância do vosso livro? de que é o primeiro relato histórico deste modo de governação?

Rita - Confesso que ao inicio, na fase de recolha de informação, não tive essa noção. Talvez no dia do lançamento eu tenha percebido o impacto, pois aí foi o momento em que as pessoas falaram connosco sobre a importância do que escrevemos!

Márcia - Também acho que só depois desse dia é que percebi a importância ... 

 

Que feedback têm recebido das pessoas que leram o vosso livro?

Rita - Como continuamos no meio jornalístico, há sempre o debate com quem nos rodeia. E até hoje tem sido muito interessante esta interação. O feedback é bastante positivo. Algumas pessoas admitem que inicialmente tiveram receio em falar connosco mas depois perceberam que esses receios foram infundados porque o nosso trabalho ficou muito bom. 

Marcia - O feedback tem sido muito bom. É engraçado ver que, na altura, algumas pessoas não falaram connosco e confessam ter pena de não ter dado o seu testemunho, hoje pensam "eu fiquei fora da historia e não devia"! 

 

Porquê o prefácio escrito por José Pacheco Pereira?

Márcia- O Pacheco Pereira é um historiador, uma pessoa que conhece, estudou e investigou muito bem o Partido Comunista Português. Também não queríamos que fosse escrito por alguém ligado a um dos três partidos. Acho que fizemos a melhor opção. 

Rita - Nós convidamo-lo. Ele leu o livro e aceitou escrever o prefácio. Disse-nos "o livro está excelente". Foi uma grande honra para nós. 

 

"Geringonça", não acham uma palavra depreciativa?

Rita - sim, começou por ter esse sentido mais depreciativo mas, daqui a 30 anos quando falarmos do primeiro acordo histórico da esquerda vai ser sempre a "geringonça"!

Márcia - quando o Paulo Portas usou esta palavra era claramente no sentido depreciativo, referindo-se a algo frágil. Mas a verdade é que a palavra é engraçada e melhor, é "geringonça" mas funciona! 

 

Obrigada Rita e Márcia. Desejo os maiores sucessos profissionais. 

E depois desta entrevista acredito que o livro faça parte dos presentes de natal dos meus queridos leitores 

 

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